Tem algo acontecendo nas periferias de São Paulo que os executivos de gravadoras ainda não conseguiram nomear direito. Chame de funk paulistano, de funk 150 BPM, de trap brasileiro — o nome muda dependendo de quem você pergunta. O que não muda é o fato de que produtores de 19, 22, 24 anos estão colocando faixas no Spotify que chegam a 10 milhões de plays em países onde a maioria das pessoas nunca pisou no Brasil.
Não existe um acordo de distribuição global por trás disso. Não existe uma campanha de marketing internacional. Existe um algoritmo que não sabe fronteiras e uma sonoridade que, aparentemente, atravessa idiomas.
A CENA QUE CRESCEU SEM PEDIR LICENÇA
MC Brayan tem 21 anos e mora em Mauá, no ABC paulista. Ele começou a produzir no quarto do apartamento da mãe com um notebook de segunda mão e um fone de ouvido barato. Hoje tem 340 mil seguidores no Instagram, um canal no YouTube com 2 milhões de inscritos e um e-mail cheio de propostas de selos europeus que ele ainda não sabe bem o que fazer.
"Eu não fiz nada diferente do que sempre fiz. Só que de repente apareceu gente de Portugal, da Alemanha, do Japão nos comentários. Não entendo como chegou lá, mas chegou", diz ele.
A explicação, segundo pesquisadores de cultura digital ouvidos pelo Zanivo, está na combinação de fatores: a velocidade do BPM cria uma energia que funciona em contextos de festa em qualquer lugar do mundo; a produção minimalista, com batidas repetitivas e vocais processados, tem uma qualidade hipnótica que transcende a barreira linguística; e o TikTok, com sua lógica de recomendação baseada em comportamento e não em localização, foi o vetor de distribuição que nenhuma gravadora poderia ter comprado.
O QUE A INDÚSTRIA AINDA NÃO ENTENDEU
O problema, para quem está de fora tentando entrar, é que essa cena não funciona com as regras tradicionais da indústria fonográfica. Os artistas são produtores, distribuidores e gestores de marca ao mesmo tempo. Eles lançam faixas com uma frequência que nenhuma gravadora consegue acompanhar — às vezes duas ou três por semana. E eles têm uma relação direta com o público que torna o intermediário, no mínimo, dispensável.
Júlia Mendonça conversou com seis produtores da cena para esta reportagem. Nenhum deles assinou contrato com uma grande gravadora. Todos estão faturando.